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Belas Palavras - comunicação e vínculo

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“Ñe’e porã, na língua e na cultura guarani, significa “as belas palavras”, aquelas que impulsionam o outro que escuta ao encontro com sua luz, com o que há de melhor dentro de si mesmo. São palavras faladas e escutadas de coração a coração” (Nilton Fisher) Belas Palavras é uma expressão do povo Guarani. A expressão original "ne'e porã" pode ser traduzida como belas palavras, palavras formosas, palavras sagradas... É que beleza e sacralidade estão muito próximas na cultura guarani - a palavra “porã” significa ao mesmo tempo belo e sagrado . Assim também é com a palavra “ne’e”, que sintetiza as ideias de palavra , linguagem e ser/alma , como nos explica Kaká Werá, em seu livro Tupã Tenondé: “Para o pensamento Guarani, ser e linguagem, alma e palavra são uma coisa só”. Para mim, as belas palavras guarani são fonte de inspiração para um jeito de viver e de nos comunicar que cuida das nossas relações, que reconhece que a Vida é sagrada e que estamos todos interconec...

Pedidos x Exigências: como acontece na escola?

    Vocês já devem ter ouvido falar sobre um conceito central da Comunicação Não Violenta que é o de exigência. Pra quem não sabe o que é, vou explicar brevemente: Marshall Rosenberg, o criador da Comunicação Não Violenta, apresentou uma série de distinções pra explicar o que ele considerava uma oposição entre paradigmas. Na educação, ele nomeou esses paradigmas como Educação para a Dominação e Educação que serve à Vida - esse aliás bem próximo da forma como os educadores cearenses Ruth Cavalcante e Cezar Wagner nomearam sua proposta: Educação Biocêntrica. Uma dessas distinções foi entre Pedido e Exigência. Em síntese: - um pedido é uma expressão que conta ao outro de que modo ele PODERIA CONTRIBUIR pra satisfazer alguma(s) necessidade(s) minha. - a exigência é uma expressão que parte da ideia de que o outro TEM QUE satisfazer uma (ou mais) necessidade minha. Como essa distinção se concretiza no cotidiano escolar? Vou dar um exemplo: Uma aluna disse para o professor: "Professo...

Carnaval: o mundo onde eu quero viver!

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  Há alguns anos atrás, eu aprendi a desgostar de Carnaval. É verdade que eu guardo boas e vagas lembranças de um “Que merda é essa?” e um “Periquito da madame”, carnavais de clube que eu ia com a minha família, ainda beeem pequena, e das noites assistindo as escolas de samba no sítio do meu avô. Mas a minha experiência mais marcante era de mela-mela na infância (num dos quais uma mulher me surpreendeu por trás enchendo meus olhos de maizena) e de amarrar o tchan nas praias do Ceará na adolescência. Na juventude, quando entrei na faculdade e comecei a me politizar, comecei a achar tudo isso fútil demais, e me refugiei no Carnaval cult de Guaramiranga, o Festival de Jazz e Blues. Era como um ato de rebeldia, pra negar aquilo que eu achava vulgar demais. E era, porque havia sido tirada a essência, a alma da festa. O mela-mela acabava sendo violento, em especial com as crianças, e as músicas de axé que eu dançava não vinham junto com uma leitura sobre a cultura afro-diaspórica. F...

Como ensinar o respeito à diversidade com a CNV?

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 Há vários anos meu filho comentou comigo: - Mamãe, tem um menino da minha escola que gosta de usar roupa de menina! Era uma excelente oportunidade pra eu fazer um discurso sobre a importância do respeito à diversidade, sobre identidades de gênero e pessoas trans. Mas eu resolvi fazer outra coisa… Eu escolhi manter uma postura de curiosidade e acolhimento, e perguntar pra ele: - E pra você é estranho ver um menino com roupa de menina, filho? Ele disse que sim, e fui acolhendo seu estranhamento, apoiando-o a identificar e nomear como ele se sentia, e pra que necessidades aqueles sentimentos apontavam. Então ele mesmo chegou à conclusão de que a roupa que a pessoa escolhe vestir, ou mesmo o gênero com o qual ela se identifica, pode ser diferente daquele que foi designado quando ela nasceu. E que isso era algo pouco comum na sua escola, e também em outros ambientes por onde ele circulava. E ele começou a se sentir mais seguro diante daquela situação antes desconhecida. Hoje, me...

"Você não é macho o suficiente pra me bater"

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   O que faz um homem adulto, candidato a prefeito de uma cidade, dizer para outro que ele “não é homem suficiente pra bater” nele? E o que move o outro homem adulto, também candidato a prefeito, a jogar um banco na direção de seu colega de debate? Você pode ter ficado indignada com esse homem que jogou o banco, afinal ele partiu pra violência física. Ou você pode estar se sentindo um pouco “de alma lavada” pelo seu gesto, porque você também se incomoda com as atitudes daquele que questionou a masculinidade do colega. Eu quero aqui propor um olhar um pouco mais distanciado (se for possível pra você agora) sobre essa situação. Ameaças, acusações, críticas e julgamentos moralizantes do tipo “você não é homem suficiente” são, infelizmente, um comportamento comum numa sociedade marcada por valores baseados em certo x errado, vítima x vilão. E mais ainda, no caso dos homens, educados por meio de pedagogias de gênero* que os moldam a uma masculinidade tóxica, seja ela hegemônica ou ...

Luto por ela e por ele

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Escrevo esse texto como forma de dar espaço ao LUTO tão presente aqui nesse momento. Sinto a dor de imaginar que uma mulher negra sofreu assédio sexual por um homem negro. Sinto a dor de saber que um homem negro com uma trajetória tão preciosa na defesa dos direitos humanos foi exonerado do ministério. E ambas as dores são legítimas. Se tomo partido, se escolho quem eu acho que está mentindo, invalido uma das minhas dores. E nego a uma dessas pessoas o reconhecimento da sua condição humana. Talvez seja esse o grande desafio das pessoas em movimentos (negros, feministas, de esquerda…) nesse momento. Com os recursos que recebemos/aprendemos na nossa cultura, fica muito difícil ter uma visão ampla, complexa, que abranja ambas as humanidades, ambas as nossas dores. Aprendemos a tomar partido, aprendemos que se alguém está falando a verdade, o outro (que fala o oposto) está mentindo. Aprendemos que uma pessoa acusada é culpada ou inocente; que se um é culpado, o outro é a vítima. E assim ta...

Titulação de facilitadores de Biodança

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  Fui convidada por três pessoas que eu admiro e quero muito bem pra compor a banca apreciadora das suas Obras Sínteses da conclusão do Curso de Formação de Facilitadores de Biodança, da Escola de Biodança do Ceará (EBC), todos orientados por Cleusa Denz, facilitadora-didata e amiga querida. Narcélio Torres apresentou sua obra síntese "Uma jornada em busca de mim mesmo", em formato de entrevista. A obra síntese da Izabele Brito, " Biodança: uma experiência transformadora" foi apresentada através de imagens, textos, vídeo, canto, sorrisos e lágrimas. E Siomar Ziegler apresentou sua obra síntese: "A mulher que, beirando os 60, descobriu a Biodança" em formato de esquete teatral, que incluía vídeo, dança e palavras geradoras. As mesas apreciadoras eu dividi com Carmen Paula, Reni Dino, Idalice Barbosa e nosso mestre Cezar Wagner, além das outras duas outras mesas que aconteceram no mesmo dia, de Márcia Aires e Manuela Guerreiro, que tiveram minha mãe Zeza...

Vivência "Mulheres cuidando de si" - 2a. edição

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Tantas vidas juntas, tanta Vida a reencontrar. No próprio corpo, na respiração, no diálogo com a outra. Na grama macia sob os pés, nas flores, no cheiro das ervas, na joaninha que passeia pelo jardim… Tantas vidas de mulheres que se entrelaçaram em dança e criatividade, reencontrando também nossas crianças em meio a tintas, cola, tecidos e lantejoulas. E a cada (re)encontro, nos fortalecemos, nos tecemos em rede, colo e potência de vida. Redescobrimos quem somos e o que podemos ser. Gratidão a cada mulher que veio ao nosso encontro na segunda edição da Vivência “Mulheres cuidando de si”, realizada pelo Instituto Zeza Weyne. Em breve, teremos mais!